Castros e romanização: o que dizem as fichas oficiais
Seis sítios classificados em Portugal mostram que nem todo povoado fortificado pertence à mesma época ou seguiu o mesmo percurso. As fichas oficiais permitem comparar muralhas, ocupações e transformações ligadas ao mundo romano, mas também exigem cuidado com as lacunas.
> Seis sítios classificados em Portugal mostram que nem todo povoado fortificado pertence à mesma época ou seguiu o mesmo percurso. As fichas oficiais permitem comparar muralhas, ocupações e transformações ligadas ao mundo romano, mas também exigem cuidado com as lacunas.
Uma muralha antiga não basta para contar a história de quem viveu atrás dela. Entre os sítios classificados em Portugal, há povoados erguidos em épocas diferentes, lugares com ocupação prolongada e uma cidade cuja transformação urbana se relaciona com o domínio romano. Juntá-los sob o rótulo de castros pode ser conveniente, mas apaga diferenças importantes.
As fichas oficiais ajudam a recuperar essas diferenças. O Cerro do Castelo de Santa Justa remete ao Calcolítico; Sabariz e Sanfins oferecem referências à Idade do Ferro; Monte Mozinho mostra ocupação que alcança o período romano e continua observável no medieval. Conímbriga, por sua vez, permite examinar a cidade em transformação. A comparação não produz uma história única: mostra percursos distintos.
Há também uma cautela essencial. Uma ficha pode registrar uma classificação, descrever vestígios e informar que uma mudança foi proposta. Essas afirmações não têm o mesmo significado. Saber separá-las é o melhor caminho para entender o que realmente se conhece sobre os sítios.
O que está sendo comparado
O conjunto reúne seis lugares registrados na Direção-Geral do Património Cultural, a DGPC. Três são classificados como Monumento Nacional e três como Imóvel de Interesse Público. A distribuição territorial também não é uniforme: Bagunte, Sanfins e Monte Mozinho ficam no distrito do Porto; Sabariz, no de Viana do Castelo; Santa Justa, no de Faro; e Conímbriga, no de Coimbra.
As próprias tipologias oficiais já impedem tratar todos como equivalentes. Bagunte, Monte Mozinho e Sabariz aparecem como castros; Sanfins, como citânia; Santa Justa, como povoado; Conímbriga, como cidade. Essas designações orientam a leitura, mas não substituem as descrições de cada lugar. O ponto não é descobrir qual rótulo parece mais impressionante. É perguntar que tipo de ocupação e de transformação cada registro documenta.
Uma forma simples de organizar a leitura é separar três perguntas:
• O que a ficha informa sobre a época de construção ou ocupação? • Quais estruturas e características ela descreve? • O que pertence à situação legal do bem, e não à interpretação de sua história?
Essa distinção evita, por exemplo, transformar a data de um decreto na data em que uma muralha foi erguida. Também impede que uma proposta administrativa seja apresentada como decisão já concluída.
Santa Justa: fortificar não começou com os castros
No distrito de Faro, o Cerro do Castelo de Santa Justa é identificado como povoado edificado no Calcolítico, durante o terceiro milênio antes de Cristo. Sua implantação destacada controlava acessos de um afluente da ribeira da Foupana. O registro descreve uma parte muralhada de grauvaque e uma planta elipsoide com torres ocas e maciças de dimensões variadas.
Isso faz de Santa Justa um contraponto decisivo aos sítios do Norte. Há defesa e controle da paisagem, mas o material não o apresenta como um castro da Idade do Ferro. A semelhança geral entre lugares fortificados não autoriza colocá-los na mesma sociedade ou no mesmo momento histórico. É possível comparar soluções defensivas sem apagar a distância cronológica indicada pelas fichas.
O povoado foi identificado pelo arqueólogo Vítor dos Santos Gonçalves, conforme o registro fornecido, e é classificado como Imóvel de Interesse Público. O eixo comparativo do material também associa Santa Justa à mineração e à metalurgia antiga do cobre. Essa indicação ajuda a situar a atividade econômica, mas não traz, por si só, uma descrição de oficinas, produção ou circulação de objetos. Para ir além disso, seria necessário outro conjunto de evidências.
Sabariz: descoberta, muralhas e limites da descrição
O Castro de Sabariz, em Viana do Castelo, é apresentado como um povoado erguido durante a Idade do Ferro da região. Sua descrição registra um sistema defensivo formado por duas linhas de muralha. Aqui, ao contrário de Santa Justa, a comparação com a cultura dos povoados fortificados do Norte se aproxima do tema central dos castros.
A ficha informa ainda que o sítio foi descoberto durante uma limpeza do monte sobre a povoação de Sabariz. O reconhecimento preliminar foi promovido por Mário Cardoso, identificado no material como arqueólogo e membro da Sociedade Martins Sarmento. Esses dados explicam como o lugar entrou no registro arqueológico, mas não devem ser confundidos com a data de sua construção antiga.
Sabariz também aparece com outra designação, 'Povoado fortificado de Sabariz', e é classificado como Imóvel de Interesse Público. A existência de duas linhas defensivas é uma informação concreta; já o material fornecido não detalha, para este sítio, uma sequência de reformas, a organização completa das casas ou as circunstâncias de eventual contato romano. Sua contribuição à comparação está justamente no que a ficha permite afirmar com segurança — e no que ela não permite completar.
Sanfins: uma citânia e seus contatos
A Citânia de Sanfins, em Paços de Ferreira, recebe na ficha o enquadramento da Cultura Castreja do Noroeste. O registro a apresenta como um dos maiores povoados fortificados escavados em Portugal. Também indica que suas sucessivas etapas de edificação terão ocorrido entre o século V antes de Cristo e a segunda metade do século II antes de Cristo. A formulação importa: ela se refere a etapas de construção, não a uma única obra executada de uma vez.
Outro dado amplia a perspectiva. Segundo o material, o espólio atesta contatos tanto com zonas meridionais ibero-púnicas quanto com regiões do continente europeu. Contato não é sinônimo de origem. Por isso, essa informação não sustenta a alegação de que os castros do Norte tenham sido fundados por fenícios ou cartagineses. A ficha aponta conexões, sem reduzir a citânia a uma explicação externa.
Os eixos comparativos fornecidos destacam ainda os balneários castrejos, com fornos e 'pedras formosas' decoradas, ao tratar de Sanfins. São elementos que levam a leitura além das muralhas: um povoado fortificado também incluía espaços de uso comunitário e práticas sociais. Sanfins é classificada como Monumento Nacional, mas essa proteção legal não deve ser usada como medida de importância histórica em comparação com os outros lugares.
Bagunte: quando a delimitação muda
O caso do Castro de Bagunte, também chamado Cividade de Bagunte, mostra como o conhecimento sobre a extensão de um sítio pode mudar. O lugar foi incluído na lista de imóveis classificados como monumentos nacionais em 1910. Mais tarde, trabalhos mencionados no material permitiram redefinir a extensão do povoado como mais ampla do que a área então classificada, motivando uma proposta de ampliação em 2015.
A distinção é importante: o registro informa uma proposta, não autoriza afirmar que toda a nova área já recebeu classificação definitiva. Há também um procedimento para alterar a denominação para Cividade de Bagunte. Nome oficial, delimitação estudada e área legalmente protegida são questões relacionadas, mas não idênticas. Uma leitura apressada poderia reuni-las em uma conclusão que o material não confirma.
A ficha menciona um amplo espólio proveniente das escavações, disperso pelo Gabinete de Arqueologia da Câmara de Vila do Conde, pelo Museu de Antropologia Prof. Mendes Correia e pelo Museu de Etnografia da Cooperativa Agrícola de Vila do Conde. Ela não oferece, no trecho fornecido, um inventário das peças. Assim, a dispersão pode ser descrita, mas não se deve atribuir objetos específicos a cada instituição. Bagunte ensina que a história de um povoado também passa pela revisão dos seus limites e pela guarda do que foi encontrado.
Monte Mozinho: ocupações além de uma época
O Castro de Monte Mozinho, em Penafiel, é descrito como um povoado fortificado edificado durante a Proto-história. A ficha registra ocupação ao longo do primeiro século depois de Cristo e continuidade ocupacional observada já no período medieval. Em vez de encaixá-lo em uma única fase, o documento convida a acompanhar a duração do lugar.
O registro informa uma área intramuros de cerca de vinte hectares. Trata-se de uma medida associada à área protegida pelas estruturas do povoado, não de uma contagem de moradores. Sem dados de população no material, qualquer estimativa desse tipo seria especulativa. Monte Mozinho é classificado como Imóvel de Interesse Público e aparece também com a designação 'Cidade Morta de Penafiel'. O nome é marcante, mas a continuidade de ocupação registrada pela ficha mostra por que ele não deve ser tomado como descrição literal de toda a trajetória do sítio.
Na comparação com Sanfins, a diferença mais produtiva não é decidir qual povoado foi mais importante. É notar que um registro enfatiza etapas de edificação e contatos, enquanto o outro documenta ocupações em momentos históricos distintos. Essa duração abre espaço para estudar mudanças associadas ao mundo romano, sem presumir que toda característica do lugar tenha surgido ao mesmo tempo.
Conímbriga: uma cidade em transformação
Conímbriga ocupa outro lugar nesta seleção: sua tipologia oficial é cidade. O material informa que sua transformação se inicia no principado de Augusto, com a construção de equipamentos públicos e a adoção de um novo paradigma de urbanismo. Nos eixos de comparação, esse processo aparece em contraste com formas de habitação proto-históricas, por meio de quarteirões ortogonais e casas romanas com pátio interno e mosaicos.
Esse contraste ajuda a visualizar uma mudança urbana, mas não deve ser lido como uma regra seguida igualmente por todos os povoados fortificados. Conímbriga é um caso de cidade; Sabariz, Sanfins, Bagunte e Monte Mozinho têm registros e trajetórias próprios. 'Romanização' é útil como nome para transformações e contatos, desde que não apague essas diferenças nem sugira uma substituição instantânea de tudo o que existia antes.
A ficha de Conímbriga registra ainda a existência de outros complexos termais, mas afirma que não foi possível determinar com exatidão sua cronologia nem saber se funcionaram simultaneamente. É um limite especialmente instrutivo: reconhecer vários edifícios não basta para colocá-los todos na mesma fase. As ruínas são classificadas como Monumento Nacional, condição legal que convive com perguntas arqueológicas ainda abertas.
Romanização não é uma linha reta
Os eixos editoriais do material mencionam a aculturação de populações galaico-lusitanas, a coexistência de cultos indígenas e imperiais e a ereção de estátuas de guerreiros galaicos. Em conjunto, esses temas sugerem que a relação com Roma envolveu permanências e mudanças, não apenas a troca de uma arquitetura por outra. Ainda assim, o material fornecido não distribui cada exemplo por todos os sítios desta seleção.
É mais seguro, portanto, trabalhar com aquilo que cada ficha efetivamente situa. Em Monte Mozinho, há ocupação registrada no primeiro século depois de Cristo e continuidade posterior. Em Conímbriga, a transformação urbana é relacionada ao principado de Augusto. Em Sanfins, a cronologia citada diz respeito às etapas de edificação da citânia, e seu espólio indica contatos com regiões diferentes. São informações compatíveis com uma discussão sobre romanização, mas não compõem uma única sequência válida para todos os lugares.
Também é preciso distinguir circulação de objetos, alterações nas construções e mudança de práticas sociais. O material aproxima esses assuntos, porém não oferece dados suficientes para medir quanto cada comunidade mudou ou permaneceu igual. Falar com precisão sobre romanização exige preservar essa diferença entre indício, interpretação e generalização.
O que as fichas esclarecem — e o que fica em aberto
Lidas em conjunto, as fichas mostram uma variedade que o termo 'fortificação' sozinho esconde. Santa Justa remete a um povoado calcolítico; Sabariz apresenta muralhas de um sítio da Idade do Ferro; Sanfins reúne etapas construtivas e indícios de contatos; Bagunte mostra uma delimitação revista e uma ampliação proposta; Monte Mozinho registra ocupação prolongada; Conímbriga permite observar a transformação de uma cidade.
Elas também impõem limites claros. Não sustentam histórias de gigantes construtores, origens fenícias ou cartaginesas atribuídas sem base aos castros do Norte, nem relatos de batalhas sem registro histórico ou arqueológico. E, mesmo quando um tema é legítimo, como a romanização, nem sempre há informação suficiente para responder a todas as perguntas sobre seu ritmo e alcance.
A conclusão é menos espetacular e mais interessante: esses lugares não repetem a mesma história. Compará-los vale justamente para perceber diferenças de época, função, ocupação e documentação, sem converter lacunas em certezas. Qual deles mais desperta sua curiosidade: o povoado calcolítico de Santa Justa, as citânias e castros do Norte ou a cidade de Conímbriga?
Perguntas frequentes
Quantos sítios fortificados e cidades antigas foram comparados no texto?
Como se distribuem as categorias de proteção oficial desses sítios?
Qual sítio é apresentado como um povoado do Calcolítico?
O que a ficha de Monte Mozinho informa sobre sua ocupação?
O que a ficha de Conímbriga permite observar?
O texto afirma que os castros do Norte têm origem fenícia ou cartaginesa?
Texto escrito a partir de pesquisa arqueológica publicada.