Castro de Bagunte: casas, muralhas e história
O Castro de Bagunte, também chamado Cividade de Bagunte, preserva vestígios de habitações, ruas e muralhas de um grande povoado do Noroeste Peninsular. A ficha oficial permite acompanhar o que foi encontrado, o que permanece por escavar e por que seus dois nomes exigem cuidado.
> O Castro de Bagunte, também chamado Cividade de Bagunte, preserva vestígios de habitações, ruas e muralhas de um grande povoado do Noroeste Peninsular. A ficha oficial permite acompanhar o que foi encontrado, o que permanece por escavar e por que seus dois nomes exigem cuidado.
No Castro de Bagunte, as ruínas visíveis não mostram apenas casas isoladas. Habitações dispostas em conjuntos, dois arruamentos e linhas de muralha ajudam a perceber a organização de um povoado habitado entre os séculos IV a.C. e IV d.C. Ainda assim, parte do sítio permanece coberta por vegetação ou à espera de escavação.
A ficha oficial do Património Imóvel, da Direção-Geral do Património Cultural, apresenta Bagunte como um dos maiores povoados da cultura castreja do Noroeste Peninsular. Ela também revela uma história de investigação desigual: campanhas que expuseram estruturas importantes, um período de abandono e trabalhos posteriores que levaram à revisão da área conhecida do povoado.
Há, desde o começo, um detalhe a observar. O monumento foi classificado com o nome 'Castro de Bagunte'. A mesma ficha usa 'Cividade de Bagunte', mas registra a alteração da denominação como parte de um procedimento que ainda estava em revisão no andamento legal apresentado. Os dois nomes aparecem aqui sem tratar a mudança como concluída.
Onde fica e o que significa a classificação
O sítio localiza-se no concelho de Vila do Conde, no distrito do Porto. A ficha o situa no Monte da Soledade ao descrever o povoado; na identificação, registra como referência de local o 'Monte da Cividade São Mamede'. Em vez de apagar essa diferença de formulação, vale mantê-la: são as referências apresentadas pelo próprio registro.
O Castro de Bagunte é classificado como Monumento Nacional. Isso reconhece sua importância patrimonial, mas não significa que toda a extensão hoje identificada estivesse incluída na delimitação original. Os trabalhos arqueológicos mais recentes mencionados na ficha levaram justamente à conclusão de que o povoado era mais amplo do que a área classificada em 1910.
Esse contraste ajuda a ler o lugar. Uma classificação pode proteger uma área definida a partir do conhecimento disponível em determinado momento; novas investigações podem mostrar que o sítio ultrapassa aqueles limites. Em Bagunte, compreender a diferença entre monumento classificado e povoado identificado é essencial para não imaginar que tudo o que existiu já esteja exposto ou estudado.
Castro de Bagunte ou Cividade de Bagunte?
Os dois nomes designam o sítio na ficha oficial, mas têm papéis diferentes na história administrativa apresentada. Em 1910, a classificação ocorreu com a designação 'Castro de Bagunte'. Posteriormente, foi aberto um procedimento para ampliar a área classificada e alterar a denominação para 'Cividade de Bagunte'.
A cronologia registrada inclui uma proposta da DRC do Norte em 2016 e um parecer favorável da SPAA do Conselho Nacional de Cultura em 2017. Depois, um despacho de concordância da diretora-geral da DGPC devolveu o processo à DRC do Norte para revisão das restrições. Esse é o andamento que a ficha apresenta; ele não autoriza afirmar que a mudança de nome tenha sido concluída.
A distinção pode parecer burocrática, mas evita um erro de leitura. Encontrar 'Cividade de Bagunte' num texto sobre as ruínas não apaga o nome da classificação de 1910. Da mesma forma, encontrar 'Castro de Bagunte' não significa ignorar a denominação proposta no procedimento posterior. Para o leitor, o mais seguro é reconhecer as duas formas e separar o uso corrente do resultado formal que o registro efetivamente documenta.
Um povoado da Idade do Ferro transformado pela romanização
Segundo a ficha, o povoado foi fundado na Idade do Ferro e posteriormente romanizado. O período de ocupação indicado vai dos séculos IV a.C. ao IV d.C. Trata-se, portanto, de uma história longa, durante a qual as formas de construir e organizar o espaço não permaneceram necessariamente iguais.
As ruínas ajudam a perceber essa sequência sem permitir que ela seja simplificada. As casas-pátio atualmente visíveis remontam ao período romano. Sob o conjunto urbano formado por essas habitações, a ficha registra construções de barro e pedra bastante mais antigas. O que o visitante consegue reconhecer à superfície, portanto, não representa sozinho todas as fases de ocupação.
A informação também impede uma conclusão apressada: dizer que Bagunte foi romanizado não equivale a dizer que o povoado nasceu no período romano. A fundação anterior e as construções detectadas sob o traçado visível mostram que houve ocupação antes das casas que hoje se destacam. A ficha, porém, não fornece uma reconstituição detalhada de cada etapa desse processo; atribuir funções específicas a todas as estruturas antigas iria além do que ela informa.
As casas-pátio e os conjuntos de habitações
Mais de duas dezenas de construções encontram-se visíveis, de acordo com a descrição oficial. Elas apresentam a tipologia de casa-pátio: plantas circulares ou retangulares associadas a um espaço de pátio. Em conjunto, compõem uma disposição retangular irregular, descrita na ficha como uma espécie de 'quarteirões'.
Essa descrição exige atenção às palavras. 'Quarteirões' ajuda o leitor a imaginar grupos de construções, mas a própria ficha fala numa disposição irregular. Não se trata de presumir um desenho perfeitamente geométrico nem de reconstruir, apenas pela posição das paredes, o cotidiano de quem morava em cada casa.
Há outro limite importante: as construções visíveis são uma parte do que se conhece, não um inventário de todas as habitações que existiram. A vegetação dificulta a visão global das estruturas, e a ficha menciona áreas ainda por escavar. Mesmo a quantidade de casas expostas deve ser lida como uma descrição do que estava visível no registro, não como uma contagem definitiva do povoado em qualquer período.
Ainda assim, a relação entre casas e pátios oferece uma pista concreta sobre a organização do espaço. O interesse arqueológico não está apenas em identificar uma parede circular ou retangular, mas em observar como várias construções se articulam. É essa leitura conjunta que permite discutir o traçado do povoado sem inventar detalhes sobre seus moradores.
O que os dois arruamentos permitem supor
Os vestígios das habitações são ladeados por dois arruamentos. Com base nessa disposição, a ficha cita uma interpretação de Pinto, de 2004: as estruturas fazem supor uma vida urbana organizada, expressa na arquitetura. O verbo 'supor' importa. As ruas e as casas sustentam uma leitura do espaço, mas não são uma descrição direta de todas as atividades que ocorreram ali.
É possível, por exemplo, observar que os arruamentos se relacionam com os conjuntos habitacionais. Não é possível extrair dessa informação, por si só, uma população exata, uma divisão social completa ou regras de circulação. A ficha não apresenta esses dados. Também não registra uma interpretação concorrente específica para o traçado, de modo que seria artificial criar um debate entre pesquisadores que o material não documenta.
A força da evidência está no que pode ser visto em conjunto: casas com pátios, agrupamentos irregulares e vias ao lado das habitações. A limitação está no passo seguinte, quando se tenta converter arquitetura em uma descrição minuciosa da vida cotidiana. Bagunte convida à interpretação, mas a própria formulação da fonte deixa claro que se trata de uma inferência.
Muralhas construídas em fases distintas
O sistema defensivo é descrito como complexo. A ficha aponta vários níveis de defesa em torno do núcleo habitacional e um conjunto de linhas de muralha junto às habitações. Também informa que essas estruturas foram edificadas em fases distintas, sem atribuir uma data a cada uma delas.
Aqui, o cuidado com a linguagem faz diferença. Não há, no material, uma contagem das linhas de muralha. Também não há uma sequência completa que permita dizer qual linha pertence a qual etapa da ocupação. Transformar 'vários níveis' em um número preciso, ou associar cada muralha a um século, criaria uma certeza que o registro não oferece.
As defesas ajudam, porém, a compreender por que não basta olhar apenas para as casas. O povoado abrangia estruturas habitacionais e obras em torno delas; sua organização espacial incluía tanto as áreas de moradia quanto um sistema defensivo construído ao longo do tempo. Estudar Bagunte exige relacionar esses elementos, sem presumir que todas as partes tenham sido erguidas de uma vez.
Das primeiras visitas às grandes escavações
A existência da Cividade de Bagunte aparece em documentos medievais e fontes modernas, embora esses registros nem sempre descrevam suas estruturas. A investigação direta do sítio, conforme a ficha, começou muito depois. Martins Sarmento o visitou em 1883, com dados publicados apenas em 1899. Dois anos após essa visita, Ricardo Severo e Arthur Fonseca Cardozo estiveram no local e lideraram a primeira campanha de escavação mencionada no campo histórico; o relatório saiu no ano seguinte.
A fonte apresenta uma diferença de datas que não convém esconder. O campo 'Descrição' situa as primeiras escavações em 1886, enquanto o campo 'História' coloca a campanha liderada por Severo e Cardozo dois anos após a visita de 1883. Sem uma explicação adicional na ficha para essa diferença, é mais fiel registrar as duas formulações do que escolher uma delas e apresentá-la como cronologia incontestável.
Os dados dos estudos iniciais contribuíram para a inclusão do sítio entre os monumentos nacionais em 1910. Mais tarde, as campanhas dirigidas por Fernando Russel Cortez entre 1944 e 1947 tiveram papel decisivo no reconhecimento de sua dimensão e importância científica e arqueológica. A história das descobertas, portanto, não se resume a um único momento: diferentes etapas ampliaram o conhecimento sobre o povoado.
Abandono, limpeza e retomada dos trabalhos
Depois das campanhas mais significativas, a pesquisa não avançou de modo contínuo. A ficha informa que artigos científicos sobre o sítio e seu espólio continuaram a ser produzidos nas décadas seguintes, mas as escavações não prosseguiram. O local ficou abandonado, com consequente degradação.
Nas décadas de 1980 e 1990, ocorreram campanhas de limpeza da vegetação orientadas pelo Gabinete de Arqueologia da Câmara Municipal de Vila do Conde. Posteriormente, esse organismo criou o Projecto Arqueológico de Bagunte, que retomou escavações, entre elas as realizadas em 2011 e 2013.
Essa sequência mostra que investigar um sítio arqueológico não é apenas retirar terra para revelar paredes. A vegetação pode dificultar a leitura das estruturas, enquanto a interrupção dos trabalhos afeta o acompanhamento do lugar. A limpeza e a retomada das escavações não encerraram as perguntas sobre Bagunte; ao contrário, contribuíram para reconhecer que a extensão do povoado precisava ser revista.
Uma área conhecida maior que a classificada
A acrópole atinge 2 hectares, segundo a ficha, mas a zona de matagal impede uma visão global das estruturas existentes. Campanhas de limpeza realizadas no início do século XXI indicaram uma área construída mais extensa do que a conhecida, ainda por escavar. Há, assim, uma diferença entre aquilo que se vê, aquilo que os trabalhos permitem identificar e aquilo que continua sem investigação direta.
As escavações retomadas pelo Projecto Arqueológico de Bagunte permitiram redefinir a extensão do povoado como bastante mais ampla que a área classificada em 1910. Em consequência, foi proposta em 2015 uma ampliação da área de classificação. O procedimento legal posterior também incluiu a alteração pretendida da denominação, mas a ficha registra sua devolução para revisão das restrições em 2017.
É útil separar três informações que podem ser confundidas: • A área da acrópole é uma medida apresentada para uma parte do sítio. • A extensão do povoado foi revista após novas investigações. • A ampliação da área classificada foi proposta; a ficha não permite tratá-la como concluída.
Essa distinção preserva a principal descoberta dos trabalhos recentes sem antecipar resultados administrativos. O sítio revelou-se mais amplo do que a delimitação antiga, mas a descrição oficial não fornece uma visão completa das estruturas encobertas nem autoriza desenhar no papel tudo o que ainda falta escavar.
Onde está o espólio e o que ele não revela nesta fonte
A ficha afirma que as escavações produziram um amplo espólio, hoje disperso entre o Gabinete de Arqueologia da Câmara de Vila do Conde, o Museu de Antropologia Prof. Mendes Correia e o Museu de Etnografia da Cooperativa Agrícola de Vila do Conde. Saber onde esse material se encontra é uma informação relevante para acompanhar a história da pesquisa.
O registro, contudo, não apresenta um inventário das peças. Por isso, não cabe transformar a menção ao espólio numa lista de objetos, nem atribuir a determinados achados uma função ou uma data que não conste do material. A dispersão informada pela ficha diz respeito aos locais de depósito, não à composição detalhada do conjunto.
Bagunte integra a Rede de Castros do Noroeste, mas permanece, antes de tudo, um sítio com perguntas abertas. Suas casas, ruas e muralhas mostram uma ocupação longa e organizada; as estruturas antigas sob o conjunto visível e as áreas ainda por escavar lembram que essa imagem é parcial. Qual aspecto mais despertaria sua curiosidade numa visita: o traçado das habitações ou as partes do povoado que ainda não foram reveladas?
Perguntas frequentes
Onde fica o Castro de Bagunte?
Qual é a classificação oficial do sítio?
O nome Cividade de Bagunte já está oficialmente concluído?
Que tipo de povoado era Bagunte?
Onde está o espólio das escavações?
Texto escrito a partir de material de fonte documentado. O identificador do monumento foi conferido contra a ficha oficial (DGPC 70124) antes da publicação.
Fontes e registos oficiais
Registos oficiais de património que identificam este monumento.