Castro do Zambujal: muralhas da Idade do Cobre

O Castro do Zambujal, perto de Torres Vedras, conserva vestígios de um povoado fortificado ocupado durante o terceiro milénio a.C. A sua sequência de muralhas permite acompanhar mudanças na arquitetura defensiva do Calcolítico.

> O Castro do Zambujal, perto de Torres Vedras, conserva vestígios de um povoado fortificado ocupado durante o terceiro milénio a.C. A sua sequência de muralhas permite acompanhar mudanças na arquitetura defensiva do Calcolítico.


O Castro do Zambujal não revela apenas que um povoado antigo tinha muralhas. As pesquisas identificaram cinco fases de construção: entradas foram abertas e depois fechadas, torres mudaram de configuração e a ocupação acabou concentrada no núcleo central. É essa sequência de alterações que torna o sítio especialmente esclarecedor para quem quer entender a arquitetura do Calcolítico.

Localizado perto de Torres Vedras, em Portugal, o povoado foi ocupado sucessivamente durante o terceiro milénio a.C. A ficha oficial da Direção-Geral do Património Cultural, a DGPC, destaca tanto o seu interesse para o estudo das primeiras fortificações quanto a conservação das estruturas. Mas o que, exatamente, as muralhas permitem afirmar? E onde termina o que está documentado?

Um povoado fortificado perto de Torres Vedras

A designação oficial é Castro do Zambujal. A ficha da DGPC situa o monumento na área de Santa Maria, São Pedro e Matacães, a cerca de 3 km a sudoeste de Torres Vedras, e classifica-o na tipologia arqueológica de castro. Também registra a sua classificação como Monumento Nacional.

Para um leitor que conhece apenas a palavra 'castro' de outros contextos, vale uma cautela: o nome oficial não substitui a cronologia apresentada para este sítio. No Zambujal, a descrição histórica trata de uma elevação ocupada durante o terceiro milénio a.C. e põe em destaque as sociedades agro-metalúrgicas do Calcolítico. É a sequência arqueológica descrita na ficha, e não uma ideia genérica sobre castros, que orienta a leitura do monumento.

A posição numa elevação e a presença de várias muralhas ajudam a visualizar o caráter fortificado do povoado. Isso não autoriza, porém, reconstruir a paisagem antiga, calcular quantas pessoas viviam ali ou atribuir a cada estrutura uma função além daquela documentada. O interesse do lugar está também nessa distinção entre vestígios observados e perguntas ainda abertas.

Como o sítio entrou para a pesquisa arqueológica

Segundo a ficha oficial, o investigador torreense Leonel Trindade identificou o Castro do Zambujal em 1932. As primeiras escavações ocorreram em 1944 e 1959. Depois, a pesquisa ganhou projeção internacional com um projeto conduzido entre 1964 e 1973 por E. Sangmeister, da Universidade de Friburgo, H. Schubart, do Instituto Arqueológico Alemão de Madrid, e L. Trindade.

A partir de 1994, os trabalhos passaram a ser dirigidos por M. Kunst, do Instituto Arqueológico Alemão de Madrid, e P. Uerpmann, da Universidade de Tübingen. Essa continuidade importa porque a interpretação do sítio não depende de uma única campanha. A ficha associa a longa história das pesquisas e a documentação publicada ao lugar de destaque que o Zambujal ocupa na arqueologia portuguesa.

Há uma mudança decisiva no quadro conhecido: a quarta linha de muralhas foi detectada apenas em 1994. Assim, a compreensão do perímetro do povoado foi ampliada por pesquisas posteriores às escavações iniciais. O exemplo mostra por que uma descrição arqueológica deve ser lida como resultado do estado atual dos conhecimentos, expressão que a própria ficha emprega ao apresentar as fases construtivas.

Quatro linhas de muralha, cinco fases de construção

O dado central da descrição oficial é a identificação de cinco fases de construção ligadas à evolução de um sistema defensivo com quatro linhas de muralha. Esses números não significam que cada fase corresponda à criação de uma linha inteiramente nova. O texto da DGPC descreve intervenções distintas: construção de torres, alterações nas entradas, preenchimento de estruturas e, no fim, restrição da ocupação ao núcleo central.

Para acompanhar a sequência sem confundir os acontecimentos, é útil separar os marcos registrados na ficha:

• Na primeira fase, havia uma fortificação central com torres maciças, muros radiais e pequenas entradas. • Na segunda, foi construída uma barbacã na fortificação central, enquanto a segunda linha recebeu torres ocas e entradas. • Na terceira, a barbacã central foi colmatada e as entradas da segunda linha foram fechadas. • Na quarta, foram erguidas torres ocas nas três linhas de muralha mencionadas para essa fase. • Na fase final, a ocupação ficou restrita ao núcleo central, onde se registram derrubes e uma nova configuração da fortificação.

A quarta linha integra o perímetro revelado pelas pesquisas mais recentes; ela não deve ser inserida automaticamente em todas as fases anteriores. Essa diferença entre a extensão conhecida do sítio e a descrição de cada etapa evita transformar uma sequência complexa num desenho único e imutável.

O primeiro núcleo: torres maciças e pequenas entradas

A ficha data a primeira fase do primeiro quartel do terceiro milénio a.C. A planta descrita é centrada numa fortificação dotada de torres maciças, rodeada por muros radiais e pequenas entradas. São elementos suficientes para reconhecer uma organização arquitetônica, mas não para imaginar como era a rotina de quem atravessava essas passagens.

As pequenas entradas são relevantes porque aparecem novamente na história das alterações posteriores: na segunda linha, aberturas seriam construídas e depois encerradas. Ler a primeira fase em conjunto com as seguintes permite perceber que o acesso ao povoado não foi tratado da mesma maneira ao longo de toda a ocupação. A ficha registra mudanças materiais; não apresenta, contudo, uma explicação definitiva para a razão de cada uma delas.

Também é importante não confundir 'torres maciças' com 'torres ocas'. A distinção aparece expressamente na descrição das fases e ajuda a reconhecer que as estruturas não tinham sempre a mesma forma. Sem plantas ou descrições adicionais no material fornecido, não cabe atribuir dimensões, usos internos ou métodos de construção específicos a essas torres.

A barbacã e as entradas que foram fechadas

Na segunda fase, a fortificação central recebeu uma barbacã. Ao mesmo tempo, a segunda linha de muralhas passou a contar com torres ocas e entradas. Na terceira fase, esse arranjo mudou: a barbacã central foi colmatada e as entradas da segunda linha foram encerradas. A sequência é especialmente expressiva porque não mostra apenas expansão, mas também revisão de estruturas já existentes.

'Colmatação', aqui, acompanha o termo usado na ficha para descrever o preenchimento de uma estrutura. O registro não informa qual decisão social levou a essa intervenção. É tentador propor uma causa única para o fechamento das entradas, mas o documento não apresenta uma explicação comprovada. O que ele permite afirmar é mais preciso: acessos antes presentes deixaram de funcionar naquela configuração, enquanto a área central passou por alterações.

Essa forma de leitura é útil para todo o monumento. Uma muralha antiga não precisa representar um único projeto executado de uma vez. No Zambujal, a informação disponível descreve adaptações sucessivas. Quem quiser conhecer o tema em outros contextos pode seguir pela leitura das fichas oficiais sobre outros povoados fortificados em Portugal, sem presumir que todos tenham a mesma cronologia ou a mesma planta.

Torres ocas, derrubes e a fase final

Na quarta fase, segundo a DGPC, foram edificadas torres ocas nas três linhas de muralha. A formulação mostra uma intervenção distribuída por diferentes partes do sistema defensivo. Ela não informa, por si só, se todas as torres foram construídas simultaneamente nem como se distribuíam os espaços de habitação nessa etapa.

A fase final apresenta um quadro diferente. A ocupação passou a se restringir ao núcleo central; a ficha registra extensos derrubes e a colmatação da fortificação central na área da barbacã. Nesse contexto, estruturou-se uma muralha com 16 m de largura. Trata-se de uma medida atribuída a essa configuração final, não de uma espessura aplicável a todas as muralhas do povoado.

Os derrubes são parte do registro descrito para essa etapa. Não bastam, isoladamente, para afirmar a ocorrência de um ataque, de uma catástrofe ou de um abandono súbito: nenhuma dessas explicações é estabelecida no material fornecido. A informação segura é que a ocupação se tornou mais concentrada e que a arquitetura central assumiu outra configuração.

O que a quarta muralha mudou na compreensão do sítio

As pesquisas realizadas a partir de 1994 revelaram, de acordo com a ficha, o perímetro total de um dos mais extensos povoados calcolíticos da Estremadura. A área estudada inclui uma quarta linha de muralhas, intervencionada nas campanhas recentes, e zonas de ocupação no sopé da elevação.

Esse resultado amplia o olhar para além das estruturas centrais mais evidentes. Se há áreas de ocupação no sopé, a história do povoado não pode ser reduzida à fortificação no alto. Do mesmo modo, a descoberta tardia da quarta linha lembra que aquilo que se conhece de um sítio depende também das áreas investigadas. A ficha não fornece, porém, uma descrição detalhada da vida cotidiana nessas zonas de ocupação.

A comparação com a história de outro povoado calcolítico fortificado em Portugal pode despertar perguntas úteis sobre a diversidade desses lugares. No caso do Zambujal, a conclusão documentada permanece específica: as campanhas mais recentes permitiram reconhecer melhor a extensão do povoado e acrescentaram uma linha de muralhas ao quadro anteriormente conhecido.

Metalurgia, conservação e valor científico

A DGPC atribui ao Castro do Zambujal um papel relevante no conhecimento das primeiras sociedades agro-metalúrgicas do Calcolítico da Península Ibérica, especialmente no estudo das fortificações e das práticas de metalurgia antiga. Essa avaliação situa o sítio numa discussão arqueológica mais ampla, sem que seja necessário inventar objetos, oficinas ou técnicas que o material fornecido não descreve.

O valor patrimonial também está ligado ao estado de conservação das fortificações em altura, destacado pela ficha oficial. Preservar uma parte visível dessas estruturas permite estudar sua configuração e perceber diferenças entre intervenções construtivas. Isso não significa que todo o povoado esteja preservado da mesma forma, nem que cada trecho visível possa ser associado a uma fase sem análise arqueológica.

A classificação como Monumento Nacional integra esse reconhecimento institucional. Um decreto de 2012 ampliou a delimitação protegida e alterou a designação oficial para Castro do Zambujal. A ampliação faz sentido diante da importância de considerar o conjunto do sítio, embora a ficha não permita atribuir a essa decisão uma justificativa única além dos dados que registra. Para continuar a leitura sobre arquitetura fortificada, as muralhas e casas de outro castro português oferecem um próximo ponto de partida, respeitadas as diferenças entre os sítios.

O que permanece em aberto

O Castro do Zambujal oferece uma sequência construtiva rara em riqueza de detalhes: núcleo central, mudanças nas entradas, torres de tipos distintos, linhas de muralha e uma ocupação final mais restrita. Ao mesmo tempo, a ficha utilizada aqui não informa a população do povoado, a duração exata de cada fase, o motivo do fechamento dos acessos ou a causa dos derrubes.

Isso não diminui o interesse do monumento. Pelo contrário: separar observação de interpretação deixa mais claro o alcance das escavações e indica quais perguntas exigiriam outras evidências. O Zambujal mostra que uma fortificação pré-histórica pode ser lida como uma história de transformações, não como uma obra concluída num único momento. Entre todas as mudanças registradas, qual mais desperta sua curiosidade: a construção das torres, o fechamento das entradas ou a descoberta da quarta muralha?


Perguntas frequentes

O que é o Castro do Zambujal?

É um sítio arqueológico classificado oficialmente como Castro, com a designação de Castro do Zambujal e protegido como Monumento Nacional.

Onde fica o Castro do Zambujal?

Fica em Lisboa/Torres Vedras/Santa Maria, São Pedro e Matacães, a cerca de 3 km a sudoeste de Torres Vedras.

Quem identificou o sítio e quando isso aconteceu?

Segundo a ficha oficial, o investigador torreense Leonel Trindade identificou o Castro do Zambujal em 1932.

Quantas fases de construção a ficha oficial identifica?

A ficha identifica cinco fases de construção ligadas à evolução de um sistema defensivo com quatro linhas de muralha.

O que as pesquisas mais recentes acrescentaram ao conhecimento do sítio?

As pesquisas realizadas a partir de 1994 revelaram o perímetro total de um dos mais extensos povoados calcolíticos da Estremadura e identificaram uma quarta linha de muralhas.

Por que o Castro do Zambujal é considerado importante?

A ficha destaca o seu interesse científico para o conhecimento do Calcolítico na Península Ibérica, sobretudo nas primeiras fortificações e nas práticas de metalurgia antiga.
Redação Enigmas da História

Texto escrito a partir de pesquisa arqueológica publicada.